" DIÁRIO DE BORDO "
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Iemanjá e o Espelho das Marés*
Muito antes dos navios rasgarem o Atlântico com correntes e grilhões, havia um reino
onde o mar falava com os homens. Era o reino de Iemanjá — mãe das águas, senhora
dos peixes, rainha dos ventos que sopram sobre os oceanos. Na costa da África
Ocidental, ela era reverenciada com tambores, danças e oferendas de conchas e flores.
Iemanjá era negra como a noite sem lua, com olhos profundos como abismos
marinhos. Seu corpo era feito de água e sal, e sua voz acalmava tempestades. Os
povos iorubás a chamavam com respeito e amor, pois sabiam que ela carregava os
segredos da vida e da morte.
Ela não era apenas uma deusa. Era mãe. Era força. Era ancestralidade viva.
Mas então vieram os navios.
*** O Mar de Correntes***
Quando os primeiros africanos foram arrancados de suas terras e jogados nos porões
dos tumbeiros, Iemanjá chorou. Suas lágrimas se misturaram ao oceano, e cada onda
que batia nos cascos dos navios era um grito de revolta. Ela seguiu seus filhos — não
como prisioneira, mas como guardiã.
No Brasil, os africanos tentaram manter viva sua fé. Cantaram para os orixás em
segredo, esconderam seus rituais sob mantos católicos, e chamaram por Iemanjá nas
noites de lua cheia. Ela veio. Sempre vinha. Mas algo estranho começou a acontecer.
Os colonizadores não entendiam aquela mulher negra que surgia das águas. Não
aceitavam que uma divindade pudesse ter pele escura, cabelos crespos e traços
africanos. E então, começaram a moldá-la à sua imagem.
*** O Espelho Quebrado ***
Iemanjá, ao emergir nas praias brasileiras, viu seu reflexo distorcido. Os altares
começaram a mostrar uma mulher branca, de olhos azuis, com vestido longo e coroa
europeia. Ela era chamada de “Rainha do Mar”, mas não se parecia com a mãe
africana que cruzara o oceano.
No início, ela se calou. Sabia que seus filhos ainda a reconheciam nos cantos, nas
águas, nos sonhos. Mas com o tempo, a imagem branca se espalhou. As festas de
Iemanjá se tornaram eventos públicos, com estátuas de porcelana clara, ignorando sua
origem ancestral.
Ela caminhou pelas praias, invisível aos olhos dos que a haviam embranquecido.
Sentia-se dividida — parte dela ainda era reverenciada nos terreiros, onde sua pele era
negra e sua história viva. Mas nas avenidas e nos cartões-postais, era outra.
*** O Encontro com Exu ***
Certa noite, Iemanjá foi ao cruzamento das marés, onde Exu guardava os caminhos.
Ele a esperava com seu sorriso torto e olhos que viam tudo.
— Estás cansada, mãe das águas? — perguntou ele.
— Estou partida — respondeu Iemanjá. — Sou negra nos corações, mas branca nos
altares. Sou esquecida e celebrada ao mesmo tempo.
Exu assentiu.
— Os homens moldam os deuses à sua imagem. Mas os deuses não se apagam. Eles
se multiplicam. Você é muitas. Você é todas.
Iemanjá chorou. Mas suas lágrimas não eram de dor — eram de renascimento.
*** A Onda Que Volta ***
Nos terreiros do Recôncavo Baiano, nas casas de axé do Rio de Janeiro, nas festas de
Salvador, a verdadeira Iemanjá começou a ressurgir. Mãe negra, de seios fartos, com
turbante e colares de contas. Os filhos de santo cantavam em iorubá, e ela dançava nas
águas com alegria.
A imagem branca ainda existia — como símbolo da mistura, da adaptação, da
sobrevivência. Mas agora, havia espaço para todas as faces. Iemanjá não era uma só.
Era múltipla. Era resistência.
Ela olhou para o mar e viu seu reflexo completo: negra, branca, azul, dourada. Era
todas as cores da água. E sorriu.
Porque mesmo quando tentam apagar sua origem, a maré sempre volta.
*** Vozes da Água ***
Este conto é uma lembrança de que os orixás vieram da África com seus filhos, e que
suas imagens foram moldadas pela dor, pela resistência e pela necessidade de
sobrevivência. Iemanjá se tornou branca no Brasil não porque mudou — mas porque
foi reinterpretada por uma sociedade que tentava apagar o passado africano.
Mas ela nunca deixou de ser negra.
E nas noites de lua cheia, quando as ondas sussurram segredos, é a voz da mãe
africana que se escuta. A voz de Iemanjá, que nunca se calou.
Ela aceitou ser branca para continuar negra .
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